Ela adorava acumular coisas. Desde pequena, acumulava palavras, histórias, sorrisos, beijos e brincadeiras. O quarto era cheio de bonecas, cores e brinquedos. Para compensar o fato de não ter irmãos, acumulou também os amiguinhos. Comida era outra mania. Desde muito pequena, ela se sentia totalmente protegida na dispensa da avó. Ali, nunca faltava biscoito, doces e delícias em geral.
Quando ela virou adolescente, veio a separação dos pais e a diminuição da renda familiar. Foi quando ela passou a cultivar o estranho hábito de abrir os armários da madrasta. Sempre que lhe angustiava a falta de amor naquela casa, ela corria para o banheiro e escancarava o sorriso ao dar de cara com todos aquelas porções extras de cotonete, papel higiênico e pasta de dente. Aquilo lhe dava um alívio imenso.
A adolescência e a juventude também foram fases de acúmulo de namorados e casos passageiros. Ela não se contentava com um só amor, verdadeiro e duradouro. Se a relação acabasse de repente, como é que ela ficaria? Não ter um ou mais reservas era totalmente proibido.
E então, ela acumulou problemas, quilos a mais, lágrimas e, mais uma vez, amigos. Muitos pretensos amigos. Ela tinha que esquecer as próprias dores cuidando dos sofrimentos alheios. Ela adorava acumular os problemas de outrem. Veio a fase do acúmulo de festas, dias na praia e reuniões que varavam as madrugadas em sua casa.
Depois, na época da faculdade, ela não acumulou livros e estudo, mas sim trabalho. Como ela gostava de trabalhar! Ela nem precisava do dinheiro, nessa época, mas adorava acumular trabalho. E, com a renda do trabalho, começou a acumular mais coisas novas. Principalmente música e roupa. Dois vícios.
Quando ela engatou num namoro sério, deixou um pouco de lado os amigos. Mas continuava acumulando trabalho e roupas novas. E nas segundas-feiras, quando voltava da casa dos pais do namorado, acumulava reclamações. Ela sofria por gastar tanto tempo presa na casa dos outros. Não saía mais de casa, quase não via os próprios amigos. Só acumulava trabalho, muito trabalho, e horas à toa na casa dos sogros. Que saudades da sua vida de festas, saídas com os amigos... Que saudades da sua liberdade!
Então ela se casou. E continuou a acumular trabalho e roupas. No início do casamento, ela voltou a acumular reuniões com amigos em casa. Que maravilha! Agora ela não precisava mais ficar enfurnada o final de semana na casa dos outros. E cada dia vinha um amigo diferente curtir a casinha dela, lar dos recém-casados.
Foi nessa época que ela começou a acumular rolhas. Para cada vinho aberto e consumido em casa, ela guardava a rolha numa bandeja. Os amigos pararam de frequentar sua casa, mas a bandeja continuava se enchendo de rolhas. Então ela comprou uma garrafa de vidro gigante, que hoje tem metade de sua extensão lotada de rolhas.
A menina que acumulava trabalho não tem mais trabalho e, por conta disso, teve que parar de acumular roupas também. Não há mais dinheiro para acumular nada. Só acumula histórias (ela não pára de escrever) e reclamações do marido, que continua acumulando trabalho e dinheiro e, apesar de respeitar, não entende a fase vivida pela mulher.
Os amigos também estão longe, ocupados com seu acúmulo de filhos, trabalho e problemas. Os beijos, abraços e sorrisos dos pais, ela também não acumula mais. Eles também estão longe. A dispensa da avó também é relíquia do passado.
Agora, a menina que acumulava tudo, só tem uma coisa para acumular: tempo. Até que enfim! Assim, ela pode finalmente encarar a verdadeira fartura da vida. E, sem o peso do acúmulo supérfluo nas costas, pode enfim chegar muito mais longe.
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quinta-feira, 5 de junho de 2008
quarta-feira, 4 de junho de 2008
A verdadeira aliança (artigo)
Anteriormente, postei aqui algumas reflexões sobre a novela Duas Caras. Agora, confesso: não comecei a escrever por achar necessário tecer minha crítica da novela. Não. Desde que parei de trabalhar na Globo nunca mais me prendi por qualquer programa de televisão que seja. Assisto quando não tenho coisa melhor pra fazer e vou zapeando pra ver o que acho. Nessas idas e vindas, muitas vezes a preguiça de procurar algo bom e a curiosidade de saber sobre o que o povo na rua tanto fala, invariavelmente acabam me deixando parar em frente a novela das oito. Mas foi assistindo a uma cena que fazia brilhar as alianças de casamento de Maria Paula e Ferraço que me motivei a começar a refletir sobre a novela. O texto abaixo foi o meu primeiro sobre a trama de Aguinaldo Silva. Só não o publiquei junto com as outras reflexões, porque ele não é crítica ao trabalho do autor. É fruto apenas de uma carona que peguei na contemplação de uma imagem da novela para falar de minha relação (inexistente) com jóias e alianças. Depois disso, gostei da brincadeira e acabei me empolgando com alguns finais que o autor escreveu para seus personagens. Mas agora, atenhamo-nos à tal cena das alianças.
QUARTO / DIA - Ferraço e Maria Paula dormem nus, na cama de recém re-casados. A câmera percorre seus corpos abraçados e o brilho de suas alianças grita na tela. Então me dou conta de porque não gosto de usar jóias nem muito brilho. Além da minha pele não gostar do contato permanente com o metal (Freud explica), há a questão estética. Não sou linda por fora, mas não quero que, da minha imagem, se sobreponha o brilho dos acessórios. Quero que brilhem meus olhos, meu sorriso. Quero que minha alma cintile para iluminar meu caminho e os lugares onde eu eu estiver. Tenho a impressão que muitos acessórios, brilhos, badulaques, acabam por desviar a atenção do que realmente importa: a pessoa que está vestindo aquilo tudo. Sem contar que o excesso faz as pessoas parecerem árvores de natal, né, vamos combinar!
Voltando ao anel matrimonial, apesar de achar bonita a significação simbólica do objeto, tenho certeza de que a verdadeira aliança do casamento não está no (vil) metal. Não preciso de um bambolê de dedo pra me lembrar do meu compromisso com meu marido. A rotina se encarrega disso. E como! E sem amor verdadeiro e muita vontade de dar certo, não há aliança que segure a relação. Como não gosto de anéis no meu dedo, tenho certeza de que não é necessário me auto-impingir o uso da aliança só para seguir a tradição ou dar satisfação pra estranhos.
Antes, admito, me sentia culpada por não querer usar. Meu marido usa, gosta dessas coisas e a maioria das pessoas que me rodeiam usam. Outro dia, no meio da semana, saí com ele na rua, sem aliança, mas com vestidinho curto e salto alto, em pleno horário de almoço. E ele de terno, com a bendita aliança no dedo. E não é que passou pela minha cabeça: "xiii, do jeito que estou, vão supor que sou sua amante"? Foi então que me dei conta: que pensem! Já imaginou que privilégio a mulher estar há 11 anos com um cara, quatro deles dividindo contas, casa e problemas e mesmo assim ser vista como amante desse cara? Isso definitivamente não é pra qualquer uma. É um luxo! Pois agora está decidido: amo cada vez mais meu marido, mas não uso mais aliança.
Leia o que escrevi sobre os finais da novela, aqui.
QUARTO / DIA - Ferraço e Maria Paula dormem nus, na cama de recém re-casados. A câmera percorre seus corpos abraçados e o brilho de suas alianças grita na tela. Então me dou conta de porque não gosto de usar jóias nem muito brilho. Além da minha pele não gostar do contato permanente com o metal (Freud explica), há a questão estética. Não sou linda por fora, mas não quero que, da minha imagem, se sobreponha o brilho dos acessórios. Quero que brilhem meus olhos, meu sorriso. Quero que minha alma cintile para iluminar meu caminho e os lugares onde eu eu estiver. Tenho a impressão que muitos acessórios, brilhos, badulaques, acabam por desviar a atenção do que realmente importa: a pessoa que está vestindo aquilo tudo. Sem contar que o excesso faz as pessoas parecerem árvores de natal, né, vamos combinar!
Voltando ao anel matrimonial, apesar de achar bonita a significação simbólica do objeto, tenho certeza de que a verdadeira aliança do casamento não está no (vil) metal. Não preciso de um bambolê de dedo pra me lembrar do meu compromisso com meu marido. A rotina se encarrega disso. E como! E sem amor verdadeiro e muita vontade de dar certo, não há aliança que segure a relação. Como não gosto de anéis no meu dedo, tenho certeza de que não é necessário me auto-impingir o uso da aliança só para seguir a tradição ou dar satisfação pra estranhos.
Antes, admito, me sentia culpada por não querer usar. Meu marido usa, gosta dessas coisas e a maioria das pessoas que me rodeiam usam. Outro dia, no meio da semana, saí com ele na rua, sem aliança, mas com vestidinho curto e salto alto, em pleno horário de almoço. E ele de terno, com a bendita aliança no dedo. E não é que passou pela minha cabeça: "xiii, do jeito que estou, vão supor que sou sua amante"? Foi então que me dei conta: que pensem! Já imaginou que privilégio a mulher estar há 11 anos com um cara, quatro deles dividindo contas, casa e problemas e mesmo assim ser vista como amante desse cara? Isso definitivamente não é pra qualquer uma. É um luxo! Pois agora está decidido: amo cada vez mais meu marido, mas não uso mais aliança.
Leia o que escrevi sobre os finais da novela, aqui.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Minhas Duas Caras - reflexões sobre a novela (artigo)
Não assisti toda a novela Duas Caras, nem o último capítulo todo. Era sábado e graças à Deus eu estava me arrumando para sair de casa. Mas admiro Aguinaldo Silva pelo que ele fez. Os comentários que teço agora são muito mais uma carona para reflexão própria e alheia do que crítica. E me atenho apenas a alguns trechos do penúltimo capítulo. Esse eu assisti.
"O SONHO A GENTE NÃO AMARRA" - ZÉ DA FEIRA
Amei a fala do personagem inspirado em Zeca Pagodinho! Vocês repararam o artifício que Aguinaldo usou para reclamar da censura? Mesmo cumprindo sua função social em falar dos Alcoólatras Anônimos, ele deu um recado nas entrelinhas, quando o letrista da Portelinha disse que a inspiração para compor veio da sua bebedeira sonâmbula. Porque "o sonho a gente não amarra"! Nota 10 para Aguinaldo Silva e seus colaboradores.
Amei a fala do personagem inspirado em Zeca Pagodinho! Vocês repararam o artifício que Aguinaldo usou para reclamar da censura? Mesmo cumprindo sua função social em falar dos Alcoólatras Anônimos, ele deu um recado nas entrelinhas, quando o letrista da Portelinha disse que a inspiração para compor veio da sua bebedeira sonâmbula. Porque "o sonho a gente não amarra"! Nota 10 para Aguinaldo Silva e seus colaboradores.
Afinal, quantos sambistas queridos não deixaram a vida lhes levarem, compondo e cantando o amor e as coisas boas de viver, regados a uma cervejinha que não lhes fez nada de mal, a não ser lhes trazer alguma doença? Quem não falece de doença associada ao álcool, tem altas chances de ser atingido fatalmente por uma bala perdida, ou infectado por um tumor maligno. Se até os alimentos vêem cheios de conservantes e sujeiras cancerígenas! Afinal, não é porque alguns se viciam e ficam agressivos sob o efeito do álcool, que devemos concluir que todos que bebem seguirão o mesmo caminho. Predisposição genética, intelectual, emocional e sorte também contam, caros amigos...
"BELEZA INDECENTE" – JUVENAL ANTENA SOBRE ALZIRA
Não me dei ao trabalho de procurar saber o que aconteceu com o casal no último capítulo. Mas, "justamente", dou nota 10 para a esperteza de Aguinaldo e seus colaboradores na fala de Juvenal Antena no penúltimo capítulo, em cena magistralmente interpretada por Fagundes. Quando ele diz que a beleza da Flávia Alessandra é indecente, fiquei passada. Como o autor conseguiu dizer tanto em tão poucas palavras!
Não me dei ao trabalho de procurar saber o que aconteceu com o casal no último capítulo. Mas, "justamente", dou nota 10 para a esperteza de Aguinaldo e seus colaboradores na fala de Juvenal Antena no penúltimo capítulo, em cena magistralmente interpretada por Fagundes. Quando ele diz que a beleza da Flávia Alessandra é indecente, fiquei passada. Como o autor conseguiu dizer tanto em tão poucas palavras!
Ali me lembrei dos muçulmanos, querendo tapar a todo custo as indecências de nós, mulheres. Parece-me que voltamos aos tempos de bíblia, quando se pensava que a menstruação era uma impureza da mulher, que nós deveríamos nos sentir culpadas por sermos gostosas. Como é que os brasileiros, do país da praia e corpos expostos em desfile, conhecido pelas mulheres bonitas e sem pudor, como é que esses brasileiros podem fazer tanta questão de censurar a beleza feminina em programas noturnos de rede nacional? Só pode ser inveja de gente feia e mal comida e outros veículos que não fazem tanto sucesso e ganham tanto dinheiro como a líder de audiência!
Prazer é divino. Guerra é infernal!
Nesse momento, me lembro ainda do filme "O povo contra Larry Flynt". Estou com ele, quando dizia que pior do que expor as pessoas ao erotismo é expor, exaltar e ainda por cima vitimizar países inteiros com a truculenta violência da guerra, defendida oficialmente pelos governos, e, acrescento eu, tão sanguinariamente representada em desenhos e games infantis atuais.Prazer é divino. Guerra é infernal.
Mas tudo bem. Alzira respondeu muito bem aos invejosos, quando finalmente assumiu e teve a coragem de declarar, com segurança, à Juvenal: "Eu gosto de me sentir desejada, eu no poste e eles lá, na platéia." Uma ótima maneira de pelo menos tentar mostrar aos teleguiados que a profissão de dançarina "exótica" (engloba-se aí strip-teasers) não necessariamente tem que ser vinculada à profissão de prostituta. Quantas atrizes famosas não estampam revistas com seus corpos nus, para o deleite masculino dos Juvenais de plantão? Só corrijo uma coisinha. Isso de ter que dançar pra se sentir desejada vale mais pra gente feia, porque a Flávia Alessandra, cá pra nós, basta ficar parada, com aquela beleza e sorriso que já enlouquece os cuecas. Fala sério!
"SOU O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO" - BERNADINHO
E já que falei de guerra e prazer, acabo meu longo post elogiando o trio Bernadinho mais o tal do Carlão. Todos seriam os homens mais felizes do mundo - como Bernardinho recitou quando acordou ao lado de seus amores - se conseguissem dar vazão a seus verdadeiros desejos, sem limites e mãos invisíveis e intrometidas a lhes privar do amor universal. Não é melhor amar do que agredir?
Pena que não rolou o beijo no casório pra chocar os caretas do Brasil. Mas algo me diz que se fosse só um estalinho, não iria ter tanta polêmica assim. O assunto foi muito bem abordado e o carisma de Bernardo Mendonça ajudou brilhantemente a humanizar os homo e bissexuais tão estereotipados e mal julgados por aí. Parabéns Aguinaldo, Thiago e Wolf Maya.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Amor literário (poema)
Eles dois são poetas.
Se orgulham de serem escritores.
Não se correspondem por palavras,
mas transformam em arte seus amores.
A ficção substitui a realidade.
Como a verdade não pode ser dita,
pegam a idéia e o sentimento,
misturam tudo e nasce a escrita.
Quem lê seus textos,
publicados em orkut, blogs e afins,
não tem idéia de quem os inspira.
Como podem amar assim?
Ele escreve um poema, publica e avisa.
Ela manda e-mail, replica e verbaliza.
E assim, a dor da espera
Faz do silêncio, paixão sincera.
E as palavras do poeta
vão além dos olhos da amada,
se espalham pela internet
e deixam outras leitoras apaixonadas.
E o mesmo ocorre com a rima dela,
como, aliás, tinha de ser.
A poesia não é mais dos autores,
e passa a ser parte de quem a lê.
Se orgulham de serem escritores.
Não se correspondem por palavras,
mas transformam em arte seus amores.
A ficção substitui a realidade.
Como a verdade não pode ser dita,
pegam a idéia e o sentimento,
misturam tudo e nasce a escrita.
Quem lê seus textos,
publicados em orkut, blogs e afins,
não tem idéia de quem os inspira.
Como podem amar assim?
Ele escreve um poema, publica e avisa.
Ela manda e-mail, replica e verbaliza.
E assim, a dor da espera
Faz do silêncio, paixão sincera.
E as palavras do poeta
vão além dos olhos da amada,
se espalham pela internet
e deixam outras leitoras apaixonadas.
E o mesmo ocorre com a rima dela,
como, aliás, tinha de ser.
A poesia não é mais dos autores,
e passa a ser parte de quem a lê.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Traição (artigo)
Traição é uma palavra estranha. Será que aquele que acusa alguém de ter sido canalha por ter traído o parceiro percebe o duplo erro que está cometendo? Primeiro porque, como o bem-amado Jesus já disse, "atire a primeira pedra quem nunca pecou", embora eu não acredite na tal noção cristã de pecado. E agora o mais importante: não há traição maior do que a traição a si próprio. Quem trai suas próprias vontades sistematicamente vai ficando, pouco a pouco, de saco cheio. Até que pingue a gota d’água. Aquela que derrama todo o líquido que estava no copo. E aí, querido, quem estiver do lado, fatalmente irá se molhar. Ao passo que quem pinga, mas bebe constantemente, nunca deixa transbordar. E o melhor: não morre de sede! Quer coisa melhor do que caminhar de mãos dadas com alguém saciado? Que não te culpa pela própria infelicidade?
Por falar em culpa, eis aí outra questão. Esse papo todo só vale para quem não se deixa corroer pelo sentimento de culpa, claro. É por isso que os homens traem tanto. A sociedade foi sempre tão permissiva com as puladas de cerca masculinas, que os machos não carregam o peso da culpa por alimentarem seus desejos. Que inveja!
Namorar, juntar ou casar com alguém é uma escolha. Significa que o escolhido é melhor do que a "concorrência". Ao invés de se preocupar em descobrir uma chifrada, é melhor investir na relação. Não se acomode. Esteja sempre atento aos sinais que o parceiro manda de que algo não está bem. Até que ponto você está dando conta do recado? Já dizia minha bisavó: "quem não dá assistência, abre a porta para a concorrência". E se for esse seu caso, cabe a questão: será que você realmente quer continuar essa parceria? Viver junto não é mole. Tem que querer. Tem que dar a tal da assistência, em todos os sentidos. E se você fizer isso e não for assistido, meu bem, está na hora de rever seus conceitos. Senão é o seu copo que ainda vai transbordar.
O mesmo ocorre com restrições a comportamentos "dignos de uma mulher ou homem casados". Você tem mesmo que mudar só porque está oficialmente amando alguém? Amar é respeitar e não reprimir. Então quer dizer que a sua namorada não pode mais dançar de maneira sensual porque os outros homens vão achar que ela os está seduzindo? Dane-se eles! Ela gosta de ser sensual. Ela precisa disso para ser feliz. Então o cara não pode tomar o tal chope com os amigos? Como não? De vez em quando é bom tanto ela, quanto ele, saírem sozinhos com os amigos. Ao entrar numa relação amorosa, é preciso ter em mente como era a pessoa que você conheceu antes de namorar. Você gostou dela daquele jeito. Não tente mudá-la. Ela pode até prometer, se esforçar e acreditar piamente que vai conseguir mudar para ficar como o amado deseja, mas a essência da pessoa sempre volta a atacar. Um dia isso vai transbordar e aí salve-se quem puder. Ou você prefere morrer afogado?
Por falar em culpa, eis aí outra questão. Esse papo todo só vale para quem não se deixa corroer pelo sentimento de culpa, claro. É por isso que os homens traem tanto. A sociedade foi sempre tão permissiva com as puladas de cerca masculinas, que os machos não carregam o peso da culpa por alimentarem seus desejos. Que inveja!
Namorar, juntar ou casar com alguém é uma escolha. Significa que o escolhido é melhor do que a "concorrência". Ao invés de se preocupar em descobrir uma chifrada, é melhor investir na relação. Não se acomode. Esteja sempre atento aos sinais que o parceiro manda de que algo não está bem. Até que ponto você está dando conta do recado? Já dizia minha bisavó: "quem não dá assistência, abre a porta para a concorrência". E se for esse seu caso, cabe a questão: será que você realmente quer continuar essa parceria? Viver junto não é mole. Tem que querer. Tem que dar a tal da assistência, em todos os sentidos. E se você fizer isso e não for assistido, meu bem, está na hora de rever seus conceitos. Senão é o seu copo que ainda vai transbordar.
O mesmo ocorre com restrições a comportamentos "dignos de uma mulher ou homem casados". Você tem mesmo que mudar só porque está oficialmente amando alguém? Amar é respeitar e não reprimir. Então quer dizer que a sua namorada não pode mais dançar de maneira sensual porque os outros homens vão achar que ela os está seduzindo? Dane-se eles! Ela gosta de ser sensual. Ela precisa disso para ser feliz. Então o cara não pode tomar o tal chope com os amigos? Como não? De vez em quando é bom tanto ela, quanto ele, saírem sozinhos com os amigos. Ao entrar numa relação amorosa, é preciso ter em mente como era a pessoa que você conheceu antes de namorar. Você gostou dela daquele jeito. Não tente mudá-la. Ela pode até prometer, se esforçar e acreditar piamente que vai conseguir mudar para ficar como o amado deseja, mas a essência da pessoa sempre volta a atacar. Um dia isso vai transbordar e aí salve-se quem puder. Ou você prefere morrer afogado?
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Agora (poesia erótica)
Não quero ser tua
na rua,
quero ser nua na tua,
no quarto.
Não te quero só meu,
quero você e eu.
Não quero teu papo
de amor, ilusão, o que for...
Te quero de papo pro ar
comigo a rolar pelo chão...
Não quero a tua cara amarrada,
teu drama. Que nada!
Quero brigar na tua cama,
ser tua sacana, insana
e não namorada ajuizada!
Não sou de fachada
e nem te preciso pra isso.
Te quero sorriso, desejo
e tudo o que sinto
quando te vejo...
Não quero “tentar”
ou fingir que é sério.
Vamos apenas gozar
esse nosso mistério.
E se algum dia,
(quem sabe?)
“o sentimento rolar...”
deixa ele crescer
e a gente vê no que dá.
na rua,
quero ser nua na tua,
no quarto.
Não te quero só meu,
quero você e eu.
Não quero teu papo
de amor, ilusão, o que for...
Te quero de papo pro ar
comigo a rolar pelo chão...
Não quero a tua cara amarrada,
teu drama. Que nada!
Quero brigar na tua cama,
ser tua sacana, insana
e não namorada ajuizada!
Não sou de fachada
e nem te preciso pra isso.
Te quero sorriso, desejo
e tudo o que sinto
quando te vejo...
Não quero “tentar”
ou fingir que é sério.
Vamos apenas gozar
esse nosso mistério.
E se algum dia,
(quem sabe?)
“o sentimento rolar...”
deixa ele crescer
e a gente vê no que dá.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
O caso Ronaldo (artigo)
É óbvio que a "entrevista" de Ronaldo concedida ao Fantástico neste quatro de maio foi totalmente combinada e ensaiada de maneira a tentar limpar um pouquinho o filme do jogador depois do imbróglio com os travecos. Isso, qualquer telespectador não inocente percebeu. Mas o que fica girando na minha cabeça não é a dúvida ou a certeza de ele ter transado com travestis, de ele ter reconhecido ou não o pomo de adão. Isso não importa. O que me irrita mesmo, mas não me surpreende, é a ignorância e a hipocrisia coletiva que esse caso suscita.
Quer dizer que ele é menos "do bem", menos admirável por querer conhecer a dor e a delícia que tantos homossexuais e bissexuais já conhecem? Ele estaria errado por querer juntar, numa só parceira(o), o prazer estético que a mulher lhe proporciona com o prazer que só o falo alheio garante? Quantos homens já não tiveram essa curiosidade mas não têm coragem de experimentar? E ademais, quem não tem essa curiosidade não tem nada a ver com a vontade do outro, seja ele anônimo ou famoso. O que se faz entre quatro paredes é problema apenas das pessoas ali presentes. A única que poderia reclamar do ocorrido seria a namorada do Ronaldo. A dor da traição deve ser mesmo imensa, mas, se pensarmos bem, chegaremos à conclusão de que ela nunca poderia dar ao jogador o que o tal traveco deu, ou não deu. E se ela tiver o mesmo perfil das namoradas anteriores, é capaz até de se aproveitar desta "tragédia" para se promover e se "reerguer" em carreira solo.
Quando ainda se acreditava que o fenômeno tinha "apenas" ido à caça de prostitutas, o que não faltava era gente dizendo que ele fez besteira. "Um homem que pode ter as mulheres mais caras e bonitas do mundo, fazer um papelão desses pra quê? Vai ficar para sempre com sua imagem manchada, por causa de um capricho bobo", disseram, em uníssono, os comentaristas populares. Sim, claro. O inteligente e esclarecido povo perdoa que o craque pague caro, não oficialmente, para ter as mulheres lindíssimas que deseja. Mas pagar uma mixaria oficialmente não pode!
Eu confesso que, no lugar dele, iria fugir das interesseiras, mas se tivesse que pagar, pagaria as oficiais e não aquelas que se dizem apaixonadas, de olho na fama e no dinheiro. Ao assumirem que fazem sexo por grana, as prostitutas e travestis me parecem muito mais dignas do que as modelos e afins que fazem "amor" por dinheiro e sucesso. E os travestis não são muito diferentes de Ronaldo e de qualquer outra celebridade que, como ele, manipula sua imagem para se tornar um nome vendável no mercado. O dicionário não me deixa mentir. Eis a definição do termo "travesti" do Uol Michaelis. "1 Disfarce sob o traje de outro sexo. 2 por ext Disfarce." Por extensão: disfarce. Ronaldo não fez outra coisa nessa entrevista que não fosse disfarçar a verdade!
No entanto, não há nada pior nessa história do que a citada mancha na imagem do craque. O Fantástico abriu o programa desse domingo preparando os ânimos dos telespectadores justamente mostrando depoimentos de empresários e assessores sobre como se deve administrar a imagem de famosos. Ao citar o dia em que Ronaldo visitou crianças carentes lá do outro lado do mundo, por conselho do seu então assessor, Rodrigo Paiva, a reportagem avisou: Ronaldinho é apenas uma das celebridades que agem muitas vezes com o único propósito de criar a tal da boa imagem. O que nos lembrou o quanto celebridades desse quilate são fabricadas e falsas. Se pelo menos metade dessa grana toda de publicidade, que vai para Ronaldo e seus iguais, fosse destinada a benfeitores que efetivamente se importam e fazem algo pelas crianças famintas do mundo, haveria muito menos crianças famintas no mundo.
Por isso tudo, acho que esse caso serve para as pessoas refletirem um pouco sobre suas próprias vidas. Quem adora imitar os ídolos famosos, copiando corte de cabelo, roupas e atitudes, poderia aproveitar para enxergar que nem sempre o que veste ou traveste esses sujeitos (trocadilho inevitável) vai cair bem no seu próprio corpo. Nem sempre os objetos de uso dos famosos irá satisfazer as necessidades e desejos dos seus fãs. Eles são pessoas falhas como outras quaisquer e, às vezes, muito mais carentes e inseguras do que nós, pobres mortais. Principalmente esses que vivem controlados pelos mantenedores de imagem. Deus me livre de estar no lugar de um deles!
Agora, se depois de toda essa polêmica, Ronaldo tivesse assumido no Fantástico, ou em qualquer outro veículo, que queria fazer sexo com um travesti sim e que isso diz respeito apenas a sua vida pessoal, ele teria finalmente tomado uma atitude de homem, com H maiúsculo e muito peito. Aí sim, eu viraria sua fã.
Quer dizer que ele é menos "do bem", menos admirável por querer conhecer a dor e a delícia que tantos homossexuais e bissexuais já conhecem? Ele estaria errado por querer juntar, numa só parceira(o), o prazer estético que a mulher lhe proporciona com o prazer que só o falo alheio garante? Quantos homens já não tiveram essa curiosidade mas não têm coragem de experimentar? E ademais, quem não tem essa curiosidade não tem nada a ver com a vontade do outro, seja ele anônimo ou famoso. O que se faz entre quatro paredes é problema apenas das pessoas ali presentes. A única que poderia reclamar do ocorrido seria a namorada do Ronaldo. A dor da traição deve ser mesmo imensa, mas, se pensarmos bem, chegaremos à conclusão de que ela nunca poderia dar ao jogador o que o tal traveco deu, ou não deu. E se ela tiver o mesmo perfil das namoradas anteriores, é capaz até de se aproveitar desta "tragédia" para se promover e se "reerguer" em carreira solo.
Quando ainda se acreditava que o fenômeno tinha "apenas" ido à caça de prostitutas, o que não faltava era gente dizendo que ele fez besteira. "Um homem que pode ter as mulheres mais caras e bonitas do mundo, fazer um papelão desses pra quê? Vai ficar para sempre com sua imagem manchada, por causa de um capricho bobo", disseram, em uníssono, os comentaristas populares. Sim, claro. O inteligente e esclarecido povo perdoa que o craque pague caro, não oficialmente, para ter as mulheres lindíssimas que deseja. Mas pagar uma mixaria oficialmente não pode!
Eu confesso que, no lugar dele, iria fugir das interesseiras, mas se tivesse que pagar, pagaria as oficiais e não aquelas que se dizem apaixonadas, de olho na fama e no dinheiro. Ao assumirem que fazem sexo por grana, as prostitutas e travestis me parecem muito mais dignas do que as modelos e afins que fazem "amor" por dinheiro e sucesso. E os travestis não são muito diferentes de Ronaldo e de qualquer outra celebridade que, como ele, manipula sua imagem para se tornar um nome vendável no mercado. O dicionário não me deixa mentir. Eis a definição do termo "travesti" do Uol Michaelis. "1 Disfarce sob o traje de outro sexo. 2 por ext Disfarce." Por extensão: disfarce. Ronaldo não fez outra coisa nessa entrevista que não fosse disfarçar a verdade!
No entanto, não há nada pior nessa história do que a citada mancha na imagem do craque. O Fantástico abriu o programa desse domingo preparando os ânimos dos telespectadores justamente mostrando depoimentos de empresários e assessores sobre como se deve administrar a imagem de famosos. Ao citar o dia em que Ronaldo visitou crianças carentes lá do outro lado do mundo, por conselho do seu então assessor, Rodrigo Paiva, a reportagem avisou: Ronaldinho é apenas uma das celebridades que agem muitas vezes com o único propósito de criar a tal da boa imagem. O que nos lembrou o quanto celebridades desse quilate são fabricadas e falsas. Se pelo menos metade dessa grana toda de publicidade, que vai para Ronaldo e seus iguais, fosse destinada a benfeitores que efetivamente se importam e fazem algo pelas crianças famintas do mundo, haveria muito menos crianças famintas no mundo.
Por isso tudo, acho que esse caso serve para as pessoas refletirem um pouco sobre suas próprias vidas. Quem adora imitar os ídolos famosos, copiando corte de cabelo, roupas e atitudes, poderia aproveitar para enxergar que nem sempre o que veste ou traveste esses sujeitos (trocadilho inevitável) vai cair bem no seu próprio corpo. Nem sempre os objetos de uso dos famosos irá satisfazer as necessidades e desejos dos seus fãs. Eles são pessoas falhas como outras quaisquer e, às vezes, muito mais carentes e inseguras do que nós, pobres mortais. Principalmente esses que vivem controlados pelos mantenedores de imagem. Deus me livre de estar no lugar de um deles!
Agora, se depois de toda essa polêmica, Ronaldo tivesse assumido no Fantástico, ou em qualquer outro veículo, que queria fazer sexo com um travesti sim e que isso diz respeito apenas a sua vida pessoal, ele teria finalmente tomado uma atitude de homem, com H maiúsculo e muito peito. Aí sim, eu viraria sua fã.
domingo, 4 de maio de 2008
Hereditariedade (poema)
Por que o teu passado me persegue
se o presente carrego sozinha?
Pra quê memória de tua vida
se na vida a dor é minha?
Nosso cordão não se cortou
e teu ventre ainda me abriga,
o teu rasgo cicatrizou
e arde em mim a tua ferida.
As tuas rugas não te envelhecem
só te completam, te fazem rica.
A tua tristeza não te merece,
então em mim ela se explica.
Mas é redundante sofrer assim.
Se nos teus olhos nascem as lágrimas,
porque diabos morrer em mim?!
se o presente carrego sozinha?
Pra quê memória de tua vida
se na vida a dor é minha?
Nosso cordão não se cortou
e teu ventre ainda me abriga,
o teu rasgo cicatrizou
e arde em mim a tua ferida.
As tuas rugas não te envelhecem
só te completam, te fazem rica.
A tua tristeza não te merece,
então em mim ela se explica.
Mas é redundante sofrer assim.
Se nos teus olhos nascem as lágrimas,
porque diabos morrer em mim?!
sábado, 19 de abril de 2008
A mimada e o batalhador (conto)
Mimada, ela vem de um mundo diferente.
Teve tudo de bandeja, inclusive os homens que desejava.
Brincava de seduzir quem lhe era indiferente, só para provar que podia.
Mas depois que tocava o brinquedo, pedia aos pais para comprar outro.
Como ela sempre os convencia, e ganhava novos presentes, a aquisição já não mais a interessava. E ela partia para a próxima batalha. A de conquistar outro alguém.
Ficar sempre com o mesmo homem, como sua mãe? Pra quê?
Para quando ele se enjoar, descartá-la?
Como ela fazia com seus caros brinquedos?
Como o papai fez com mamãe e sua filha, ou seja, ela?
Isso seria o fim.
Mas, na verdade, foi o começo.
Batalhador, ele sempre foi obrigado a conquistar o que tem.
Inclusive o coração dela.
Veio de mansinho, como quem não quer nada, e viu que aquela pretensa doidivana valia a pena o investimento.
Sem falar "eu te amo", "você é linda" e refreando seus desejos carnais, ele galgou um lugar em sua vida.
Quando ela se deu conta, já estava amarrada. E completamente seduzida.
Eles brigaram por muito tempo, porque suas famílias se digladiavam.
Eles representavam tudo o que uma pessoa mimada queria ter: a paciência de lutar pelas mínimas vontades e a garra insana e a persistência de batalhar para ser alguém.
Talvez, por isso, ela tanto reclamava. "Essa gente não descansa nem no carnaval? Vou viajar, se você quiser que venha também". E ele foi.
Ele queria a inocência dela e da mãe. A espontaneidade por vezes ingênua, que não podia ter lugar em seu mundo real.
A leveza da vida despreocupada, que tanto fazia falta em sua casa.
A facilidade, que lhes era nata, de terem tudo o que queriam, por obra e graça do Espírito Santo. Por elas até almejarem um pouco mais do que aquilo, porém não correrem atrás.
E se fazerem de vítimas.
Talvez por isso ele a criticava.
Também queria descansar e enfim receber. Não ter que tanto lutar para ter.
Ela tem o que ele inconscientemente queria.
E vice-versa.
Ele admirava o que ela é, mas que ele não conseguia ser.
E vice-versa.
Hoje em dia, os dois estão juntos e só vêem seus pais em dia de festa.
Mas os mundos dessas duas famílias estão ambos ali, naquele apartamento do casal.
Ela ainda deseja a garra dele. E já aprendeu a não reclamar.
Ele ainda reclama da inércia dela, mas já a ensinou a sair do lugar.
Ambos admiram as famílias um do outro, conhecendo-as de verdade e aprendendo a amá-las. Pelo que elas são. E não pelo que queriam que fossem.
A família dele também não tem mais medo da nora mimada.
E virou amiga dos pais da filha que eles não tiveram.
O batalhador é o filho que os sogros queriam ter.
E os pais do casal se vêem toda semana. Mas não por obrigação.
Enquanto os filhos aprendem a vida e vão juntando suas influências, os pais descansam juntos e jogam cartas, esperando pelos netinhos.
Agora ela sabe. Eles virão.
Teve tudo de bandeja, inclusive os homens que desejava.
Brincava de seduzir quem lhe era indiferente, só para provar que podia.
Mas depois que tocava o brinquedo, pedia aos pais para comprar outro.
Como ela sempre os convencia, e ganhava novos presentes, a aquisição já não mais a interessava. E ela partia para a próxima batalha. A de conquistar outro alguém.
Ficar sempre com o mesmo homem, como sua mãe? Pra quê?
Para quando ele se enjoar, descartá-la?
Como ela fazia com seus caros brinquedos?
Como o papai fez com mamãe e sua filha, ou seja, ela?
Isso seria o fim.
Mas, na verdade, foi o começo.
Batalhador, ele sempre foi obrigado a conquistar o que tem.
Inclusive o coração dela.
Veio de mansinho, como quem não quer nada, e viu que aquela pretensa doidivana valia a pena o investimento.
Sem falar "eu te amo", "você é linda" e refreando seus desejos carnais, ele galgou um lugar em sua vida.
Quando ela se deu conta, já estava amarrada. E completamente seduzida.
Eles brigaram por muito tempo, porque suas famílias se digladiavam.
Eles representavam tudo o que uma pessoa mimada queria ter: a paciência de lutar pelas mínimas vontades e a garra insana e a persistência de batalhar para ser alguém.
Talvez, por isso, ela tanto reclamava. "Essa gente não descansa nem no carnaval? Vou viajar, se você quiser que venha também". E ele foi.
Ele queria a inocência dela e da mãe. A espontaneidade por vezes ingênua, que não podia ter lugar em seu mundo real.
A leveza da vida despreocupada, que tanto fazia falta em sua casa.
A facilidade, que lhes era nata, de terem tudo o que queriam, por obra e graça do Espírito Santo. Por elas até almejarem um pouco mais do que aquilo, porém não correrem atrás.
E se fazerem de vítimas.
Talvez por isso ele a criticava.
Também queria descansar e enfim receber. Não ter que tanto lutar para ter.
Ela tem o que ele inconscientemente queria.
E vice-versa.
Ele admirava o que ela é, mas que ele não conseguia ser.
E vice-versa.
Hoje em dia, os dois estão juntos e só vêem seus pais em dia de festa.
Mas os mundos dessas duas famílias estão ambos ali, naquele apartamento do casal.
Ela ainda deseja a garra dele. E já aprendeu a não reclamar.
Ele ainda reclama da inércia dela, mas já a ensinou a sair do lugar.
Ambos admiram as famílias um do outro, conhecendo-as de verdade e aprendendo a amá-las. Pelo que elas são. E não pelo que queriam que fossem.
A família dele também não tem mais medo da nora mimada.
E virou amiga dos pais da filha que eles não tiveram.
O batalhador é o filho que os sogros queriam ter.
E os pais do casal se vêem toda semana. Mas não por obrigação.
Enquanto os filhos aprendem a vida e vão juntando suas influências, os pais descansam juntos e jogam cartas, esperando pelos netinhos.
Agora ela sabe. Eles virão.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
O que os livros fizeram por mim (artigo)
"A Curiosidade premiada". Esse foi o primeiro livro que li, quando criança. Nele, a autora Fernanda Lopes de Almeida conta a história de Glorinha, uma menina tão curiosa que chega a incomodar os outros com suas perguntas. Mas ela quer aprender e logo todos descobrem que essa é uma ótima maneira de descobrir o mundo.
É por isso que sou jornalista. Porque quero descobrir o mundo e as pessoas. E tenho plena noção de que por maior experiência e conhecimento que eu acumule, sempre serei uma menininha que quer aprender. Ao ler, entrevistar pessoas, pesquisar assuntos e trabalhar em cima de uma matéria, história ou texto publicitário, estou estudando o mundo e compreendendo melhor essa loucura que é viver.
É por isso que sou jornalista. Porque quero descobrir o mundo e as pessoas. E tenho plena noção de que por maior experiência e conhecimento que eu acumule, sempre serei uma menininha que quer aprender. Ao ler, entrevistar pessoas, pesquisar assuntos e trabalhar em cima de uma matéria, história ou texto publicitário, estou estudando o mundo e compreendendo melhor essa loucura que é viver.
Vieram outros livros e me apaixonei por Machado de Assis na escola. Sua narrativa até hoje é minha preferida. A de contar uma história ora como quem descreve, ora como quem diz o que sente num bate-papo, convocando o leitor a conversar. Me apaixonei também pela poesia de Cecília Meireles. Porém, apenas mais tarde descobri que nem sempre tenho que me restringir a "Ou isso, ou aquilo" para ser feliz. Posso degustar isso, aquilo e mais um pouco, para depois botar tudo na "Bolsa Amarela" da Lygia Bojunga. Obrigada, Cecília. Foi pela poesia que entrei nessa vida de escritora. Obrigada, Vinícius. Obrigada, Drummond e Quintana.
Quando a escola me trouxe as páginas de "Para gostar de ler", eu já tinha sido conquistada, mas conheci os contos, as crônicas, a lambreta e a velhinha de Paulo Mendes Campos. Longe dos quadros negros do colégio Santa Úrsula e das queridas professoras Lucy e Maria, ingressei no mundo encantado da literatura pelas palavras de Érico Veríssimo, outra paixão. Deixei de ser a inocente "Clarissa" e vi que teria que buscar eternamente a "Música ao longe", para conquistar e manter meu "Lugar ao sol".
Vieram então Sidneys Sheldons, Agatha Christies, Sherlock Holmes. Mergulhei em "Cem anos de solidão" feliz com Gabriel García Marques. Aprendi com "A revolução dos bichos", "1984", "A ilha", todos os robôs de Isaac Asimov e tantos outros. Descobri como Carlos Heitor Cony pode me fazer feliz. E então conheci os dois homens da minha vida: Nelson Rodrigues e Charles Bukowski. Foram eles que despertaram em mim a certeza de que não poderia mais adiar. Não conseguiria mais ser feliz sem fazer literatura. Sobretudo Bukowski, que me fez perceber que não podia me contentar apenas em usar minha criatividade para vender as idéias e conceitos alheios.
Foi primordial o exemplo de um amigo escritor, que muitos consideram pedante. Pim é meio excludente pro meu gosto sim, chegando a ser radical em alguns casos. Mas muitas vezes esse pretenso nariz em pé vem mais por insegurança e medo da exposição do que por certeza de sua "superioridade". Mas foi importante vê-lo, de perto, mostrar-se indiferente à cobrança absurda e desumana de uma chefe em comum. E, sobretudo, perceber que, diante de todos os sonhos e possibilidades que a grande empresa nos concedia, não se poderia deixar nada apagar ou fazer dormir a nossa verdadeira arte.
Obrigada a todos vocês, caros amigos. Ao libertário Cairo Trindade, meu professor de literatura. Aos meus ex-revisores e amigos queridos, Marcial Renato e Alexandre Almeida Santos, que continuam a me ensinar com sua sapiência, dignidade, delicadeza e exemplo de vida. E obrigada também a todos aqueles que me fizeram sofrer por questões amorosas, a começar pelo príncipe encantado escolar Marco Antônio. Não fossem eles, não sei se começaria a chorar minha poesia no papel. Agradeço também aos preconceituosos, egoístas e pessoas ridículas que me fizeram ver que a melhor maneira de encará-los é observá-los de olhos bem abertos e ouvidos atentos. Guardar tudo, para depois correr para o computador e escrever. E assim me lembrar para sempre de como não ser na vida. Obrigada, pai, mãe e marido, que me ensinaram e continuam a me ensinar a como ser na vida.
Quem sabe um dia alguém vai me agradecer também?
Quando a escola me trouxe as páginas de "Para gostar de ler", eu já tinha sido conquistada, mas conheci os contos, as crônicas, a lambreta e a velhinha de Paulo Mendes Campos. Longe dos quadros negros do colégio Santa Úrsula e das queridas professoras Lucy e Maria, ingressei no mundo encantado da literatura pelas palavras de Érico Veríssimo, outra paixão. Deixei de ser a inocente "Clarissa" e vi que teria que buscar eternamente a "Música ao longe", para conquistar e manter meu "Lugar ao sol".
Vieram então Sidneys Sheldons, Agatha Christies, Sherlock Holmes. Mergulhei em "Cem anos de solidão" feliz com Gabriel García Marques. Aprendi com "A revolução dos bichos", "1984", "A ilha", todos os robôs de Isaac Asimov e tantos outros. Descobri como Carlos Heitor Cony pode me fazer feliz. E então conheci os dois homens da minha vida: Nelson Rodrigues e Charles Bukowski. Foram eles que despertaram em mim a certeza de que não poderia mais adiar. Não conseguiria mais ser feliz sem fazer literatura. Sobretudo Bukowski, que me fez perceber que não podia me contentar apenas em usar minha criatividade para vender as idéias e conceitos alheios.
Foi primordial o exemplo de um amigo escritor, que muitos consideram pedante. Pim é meio excludente pro meu gosto sim, chegando a ser radical em alguns casos. Mas muitas vezes esse pretenso nariz em pé vem mais por insegurança e medo da exposição do que por certeza de sua "superioridade". Mas foi importante vê-lo, de perto, mostrar-se indiferente à cobrança absurda e desumana de uma chefe em comum. E, sobretudo, perceber que, diante de todos os sonhos e possibilidades que a grande empresa nos concedia, não se poderia deixar nada apagar ou fazer dormir a nossa verdadeira arte.
Obrigada a todos vocês, caros amigos. Ao libertário Cairo Trindade, meu professor de literatura. Aos meus ex-revisores e amigos queridos, Marcial Renato e Alexandre Almeida Santos, que continuam a me ensinar com sua sapiência, dignidade, delicadeza e exemplo de vida. E obrigada também a todos aqueles que me fizeram sofrer por questões amorosas, a começar pelo príncipe encantado escolar Marco Antônio. Não fossem eles, não sei se começaria a chorar minha poesia no papel. Agradeço também aos preconceituosos, egoístas e pessoas ridículas que me fizeram ver que a melhor maneira de encará-los é observá-los de olhos bem abertos e ouvidos atentos. Guardar tudo, para depois correr para o computador e escrever. E assim me lembrar para sempre de como não ser na vida. Obrigada, pai, mãe e marido, que me ensinaram e continuam a me ensinar a como ser na vida.
Quem sabe um dia alguém vai me agradecer também?
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