Quem mora em cidade grande provavelmente já deve ter se irritado com um problema urbano: o engarrafamento. Como moradora da Barra, infelizmente já fui vítima desse mal moderno. Mas isso é coisa do passado. A partir de agora, vou praticar o desapego.
Desapego da raiva que sinto de quem não aguenta esperar um segundo sequer enquanto o carro da frente dá a partida, logo após o sinal abrir. Desapego da angústia que cultivo ao constatar que só eu joguei o carro pro lado para dar passagem a uma ambulância. Será que eles não percebem que o quanto antes deixarem a ambulância passar, mais rápido ela chegará ao local do acidente que está atravancando o trânsito? E, com isso, o imbróglio se resolve mais ligeiro e seus carros finalmente conseguem sair do lugar?
Preciso me libertar ainda da incredulidade com que encaro o escândalo que o buzinaço alheio faz quando eu, respeitando a lei, deixo livre o cruzamento. Eles não sabem que o desrespeito é uma via de mão dupla? Não que eles tenham que pagar com encargos financeiros, por que aqui não se pune ninguém. A questão é que um erro individual estimula erros do colega ao lado. E também aumenta a sensação coletiva de antigos corretos, que pensam: "todo mundo faz, por que serei o único pateta a não fazer?" Ou: "Já que tive que ficar parado quando o sinal estava aberto pra mim, agora o outro inocente que espere também, ora!" E esses pensamentos se transformam em atitudes prejudiciais. Assim, uma simples raivinha momentânea vai repercutir logo logo, pois ao deixar outro infeliz empacado no cruzamento, você, mesmo sem querer, vai estimular um terceiro (a sua vítima) a fazer o mesmo que você. Assim, um vai influenciado e contagiando o outro e um dia, senão daqui a dois minutos, esse ciclo se fecha com você sendo a vítima! E lá estará você empacado no cruzamento porque o outro não respeitou a mesma regra que você desprezou.
E os desrespeitos sobre rodas não param por aí. O que são aqueles motoristas histéricos que cismam de buzinar insistentemente mesmo quando vêem que à sua frente está tudo parado? Parecem até criancinhas de fralda se esgoelando de chorar ao ver que o leitinho da mamãe não está em sua boca. Como se a progenitora estivesse negando o alimento só de sacanagem, coitadinhos! Eles não vêem que fazer barulho, nesse caso, só acirra ainda mais os ânimos dos milhares de outros motoristas que estão sofrendo tanto quanto eles, mas, por estarem poucos metros à frente, sabem o que está travando o trânsito? Sabem que não adianta berrar, digo, buzinar?
Noutro dia, os histéricos atrás de mim buzinaram tanto que me deu uma baita vontade de ter um mega-fone, pra avisar aos bebês-chorões: “Mesmo com o sinal aberto, não saímos do lugar porque o guarda de trânsito ordenou que não avançássemos, seus idiotas. Meu ouvido não é pinico!”. E o policial tomou essa atitude provavelmente porque o fluxo na outra rua era mais complicado e era necessária essa intervenção para que o trânsito fluísse melhor como um todo. Mas isso não convence os bebês-chorões, é claro. Eles desconhecem a existência do outro. O que importa é que alguém os impediu de engatinhar.
Não importa a eles que um pedestre, no meio da chuva, seja encharcado de lama quando eles passam com seus possantes pela poça, cheios de pressa. Não importa que o acostamento seja feito para uma emergência. Se tudo está lento, eles têm que burlar as leis para avançar mais alguns medíocres metros, ora bolas! Afinal, eles são gente pequena. Todo pequeno passo pra eles é um avanço e tanto, não é verdade? Sabe aquela noção que temos, quando crianças, de que uma pracinha com dois brinquedos é um enorme parque de diversões? Aquela impressão que temos de que o nosso micro mundinho é do tamanho do planeta Terra? É isso. Esses bebezões histéricos não cresceram, e continuam encarando o próprio quarto, o próprio carro e ainda o próprio umbigo cheio de vontades como a coisa mais importante do mundo. Coitados!
Acho que agora posso finalmente afirmar que já me desapeguei da raiva por essa gente. O que tenho é pena. Afinal, enquanto eles desperdiçam suas energias chorando com suas buzinas, deu tempo de eu escrever esse texto até a metade, num caderno, dentro do carro. Me deu até vontade de que ficar engarrafada mais um pouquinho...
E você, como reage no trânsito? Deixe o seu comentário clicando aqui embaixo. A autora aqui agradece! Por esses comentários no blog tenho conseguido conhecer novas pessoas e diminuir a saudade de muita gente querida. :)
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
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