segunda-feira, 8 de setembro de 2008
O verdadeiro amor cristão (artigo)
A tal mensagem “O Filho”, resumidamente, contava uma história bonitinha e emocionante, para convencer que quem ama verdadeiramente o próprio filho é um abençoado e, no caso dessa mensagem, o rapaz que amava o filho alheio era tão abençoado que ficava com uma baita herança material. Depois do final surpreendente, a mensagem ainda pega carona na histórinha para pregar que assim como esse caso, Deus, ou Jesus, sei lá, nos ama a todos, porque somos seus filhos. Mas então eu explico porque o conceito de religiosidade aí não me desceu muito bem. Tudo por causa do comentário da pessoa que me enviou essa mensagem sobre sua nora. Um comentário que me provou que nem sempre as pessoas sabem ler a verdadeira mensagem cristã, e é exatamente por isso que eu brigo tanto com a religião e a fé alheia.
Tenho certeza que a tal fulana se emocionou bastante ao ler a história do powerpoint e lhe sou muito grata por ela ter me enviado a interessante mensagem, mas levei um grande susto ao ouvi-la falar assim: “Vou ser muito sincera. Você sabe por que eu gosto da minha nora? Porque ela faz o meu filho feliz.” Aquilo ficou na minha cabeça, mas eu não falei nada, afinal, não posso me meter no sentimento alheio. Mas, a julgar pelo que já aconteceu com o coração dessa sogra a respeito de outra mulher que foi sua nora durante longos 15 anos, posso afirmar com certeza: ela realmente estava sendo sincera. Só ama pessoas que convivem com ela tão intimamente por tanto tempo enquanto aquelas pessoas estiverem lhe fazendo o favor de tratarem direito seus bens mais preciosos: os filhos. Se por acaso, por obra do destino, algo acontecer e a nora não puder mais corresponder ao amor de seu filho, imediatamente vira vilã, persona non grata. Então é aí que entra minha humilde tese. O verdadeiro cristão não é aquele que ama o próprio filho. Isso é fácil. Cristão mesmo é amar, desinteressadamente, o filho alheio, e amá-lo pelo que ele é. Sabendo reconhecer nele as qualidades até quando, eventualmente, sem querer, ele tenha nos feito mal. Isso sim é amor cristão. O resto é hipocrisia.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
No elevador (conto erótico)
Era um belo dia de verão. Daqueles que só a cidade maravilhosa sabe produzir. Com o corpo fervendo sob o comportado tailleur de marca, ardia no peito de Daniela uma vontade irresistível de andar nua. Mas, embora sonhasse com uma praia, ela estava indo para o trabalho. E, pra variar, atrasada. Por isso, ao entrar no elevador, mirou-se no espelho a fim de dar os últimos retoques na aparência. Como acontece com todas as mulheres quando se olham no tal vidrinho refletor, Daniela esqueceu do mundo à sua volta. Aliás, esqueceu até do motivo que a tinha levado ao elevador: ir à garagem pegar o carro. Por isso, Dani não apertou sequer um botão, mas mesmo assim, o elevador pôs-se a descer. Parou no quarto andar.
Gabriel, o vizinho boa vida que insiste em mostrar os músculos peitorais e abdominais muito bem esculpidos no seu traje informal, short e chinelo, entrou e deu um sorriso acompanhado de um “bom-dia”. Ela, com tal visão do paraíso, lembrou-se do inferno de dia que a esperava: muito trabalho, broncas do chefe, aquela reunião maçante com o cliente mala... Melhor nem lembrar! Daniela então esticou o braço para apertar o 3G, mas levou um baita susto ao ser interrompida por aqueles músculos morenos. Gabriel apertava o botão de emergência, aquele que a gente sempre sonhou apertar um dia para ver como é.
Esta era a sua oportunidade. Daniela sempre suspirou ao ver aquele vizinho e sempre teve curiosidade em saber como seria transar no elevador. Ela só não podia imaginar que iria unir dois desejos num só: traçar o vizinho e ainda por cima no elevador!
Fingindo inocência, afinal de contas um fingimento de vez em quando não faz mal a ninguém, ela lançou um "O que houve?". O vizinho respondeu com um beijo tão ardente que Daniela tinha a impressão de estar queimando nos caldeirões do inferno, não fosse aquele beijo o ato mais divino que experimentara.
A essa altura, já não era mais possível fingir surpresa ou consternação e ela deslizou as mãos por aquela barriga de tanquinho e parou com os dedos na borda superior do short. Foi beijando centímetro por centímetro daquela pele, desde o pescoço até o short, que rapidamente foi tirado com as afoitas mãos de Daniela. O membro de Gabriel estava totalmente ereto e ela não via a hora de senti-lo dentro de si. O vizinho, por sua vez, resolveu despi-la com a pressa de um faminto que come um banquete após dias de jejum.
Os dois corpos escorregaram para o chão, ele por baixo, ela por cima, e assim, encaixados, dançaram num ritmo que começou como o balanço de um barco flutuando por ondas calmas. Pouco a pouco, a maré foi se tornando violenta e, num instante, já lembrava um mar revolto pela tempestade. As ondas iam e vinham de tal maneira intensas que Daniela estava prestes a explodir de prazer num grito.
- AAAAAHHHHHHH!
- Calma - responde o vizinho - apertei sem querer o botão de emergência, mas consegui matar a barata. Viu? Estamos são e salvos, e assim você não vai se atrasar para o trabalho. Tenha um bom dia!
Daniela demorou alguns segundos para se recompor e, quando conseguiu encarar a barata morta no chão, uma lágrima escorreu lentamente pelo seu rosto. Ela não chorava a morte do bicho e sim porque morria ali talvez a única oportunidade de realizar seu desejo.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Final feliz (conto)
Era sempre assim. No começo do relacionamento, elas eram bonitas, charmosas, misteriosas, sedutoras. Daqui a pouco, quando se sentiam mais à vontade, tornavam-se previsíveis, inseguras, sufocantes, fofoqueiras, tagarelas. E quando abriam a boca para falar de assuntos como fidelidade, política, religião e futebol eram verdadeiras antas. O tesão morria na hora.
Por isso, João estava tão empolgado com Teresa. Já namoravam há mais de um mês e ela nunca havia tocado em assuntos proibidos. Aliás, ela não falava nada. Sabia que falar seria perda de tempo quando se tinha tanto a aprender apenas ouvindo o amado. "Que mulher sábia", pensava João.
Porém, chegou o dia em que ele cansou. Aquela história de sempre ter alguém concordando com tudo já estava lhe dando nos nervos. E assim, quanto mais Teresa ficava muda, menos tesão ele sentia. Agora, ao invés de dormir ao seu lado na cama, João relegava o sofá para Teresa, que aceitava calada. Ela também não era mais a mesma: vivia deitada ali. Não saía nem pra comer.
O descaso de João já era tão grande, que quando ele ia assistir a TV no sofá, nem se importava de colocar o prato do jantar sobre os quadris de Teresa. E foi numa dessas noites que se deu o desastre: João deixou cair a faca, que caiu sob Teresa, rasgando-lhe a pele.
E, enquanto o corpo de Teresa se reduzia a plástico rasgado, o ar que por tantos dias inflou a boneca de João acertou o ouvido dele com uma fúria descomunal. Resultado: João perdeu a audição do ouvido que ainda era sadio. Bom, pelo menos agora ele poderia voltar a namorar as tagarelas em paz.
ATENÇÃO: Esta história é um quase-plágio de "Como susbstituir amores", de minha amiga Barbara Duffles. Tem isso e muito mais no blog dela. Vale a visita.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Domingo (artigo)
O que também não pode faltar é uma comida trash. Uma Pringles Páprica com H20, uma barra de chocolate, pão de queijo, pizza... Não preciso ser delicada e correta com meu estômago, só por hoje. Pensar nas calorias e nos pneuzinhos? Hoje não, pelo amor de Deus! Quero ficar descabelada, de camisola e, debaixo das cobertas, pegar o telefone e fofocar com as amigas. Falar mal da chefe, do governo, da sogra, do marido, do vizinho. Vou perder meus preciosos minutos de lazer tramando pequenas vinganças destinadas a cada ser humano que já me fez mal um dia. Quero meter o pau em todo mundo!
Sei que amanhã vou olhar pra trás, desistir de meus planos maquiavélicos e brigar comigo mesma, dizendo: “vingança não leva a nada, só traz energia ruim e nos iguala ao ser que nos fez mal. Perdoar sim é divino”. Também sei que vou concluir que perdi uma ótima oportunidade de ler um livro bom, ver um filme interessante, ler uma revista edificante, assistir a uma peça, ir a uma exposição. E tenho certeza de que vou sentir uma baita dor de estômago! “Por que comi tanta besteira ontem, meu Deus do céu?”
Quer saber? Não vou mais me sentir culpada. Afinal, se eu não conhecesse os males da comida trash, como saberia dar valor à alimentação natural? Se eu assistisse filmes cabeças todos os dias, não acabaria perdendo o encantamento pela genialidade deles? Se eu passeasse na rua todo fim de semana, como me surpreenderia com o movimento lá fora num dia de domingo?
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Perguntas sem resposta - sobre comunicação online (crônica)
Por exemplo: qual o tempo sensato para se responder um e-mail, de forma a não correr o risco de parecer que você não deu importância à pergunta do amigo? Como é que se explica que às vezes você quer distância do computador? Que é necessário ficar pelo menos uns três dias sem acessar nada? Por que você é obrigado a explicar que viajou, ou que estava com problemas no computador, ou que estava em um local sem internet, toda vez que responde com um atraso de mais de dois dias? Ela não entende essa obrigação implícita no inconsciente coletivo atual dos conectados. Essa mania de ficar online até nos finais de semana, disponível para mensagens e ligações de celulares de trabalho inclusive, ou para receber avisos e convites que poderiam muito bem chegar com um breve telefonema.
E quando ela relata novos fatos ou avança no papo, enviando mais de um e-mail para mesma pessoa? Como no caso daquelas mensagens coletivas em que se conversa, cada um respondendo se vai ou não no churrasco ou no reencontro, festa, reunião de trabalho. Quando um dos interlocutores resolve ligar para ela pra perguntar justamente sobre algum detalhe daquilo que ela explicou no último e-mail, ela fica perdidinha. E pergunta: você leu até que mensagem minha: a primeira, a segunda ou a já chegou na terceira? Porque, veja bem: se a obrigaram a se render ao esquema internético, ela não quer desperdiçar o tempo que lhe sobra offline reexplicando aquilo que já demorou tanto tempo para teclar via online, ora bolas!
E aquele amigo dela que só fica no status offline, mas nunca deixa de papear com ela via msn? Alooou! Pra quê existe um status offline? Se a pessoa tá off não deveria estar sequer logada, isso não é óbvio? Ela também não compreende porque as pessoas gastam tanta energia, deixando seus computadores ligados 24 horas, online 24 horas nos espaços comunicativos da web, se, na verdade, não estão o dia todo em frente à telinha. Quando a vida real lhe chama, ela desliga o computador. Ela odeia aquele barulho que o estabilizador faz quando está ligado.
Ela prefere o telefone, o chat (em português é papo) ao vivo. Mas já se rendeu, ao perceber que só conseguiria marcar estes encontros por meio do computador. E, agora, toda vez que liga pra alguém, acha que está entrando na privacidade da pessoa. Se telefona para a casa do sujeito então, para o aparelho fixo, já começa a ligação pedindo desculpas.
Perdão, gente, mas acho que tenho que pedir desculpas agora por fazer vocês ficarem tanto tempo em frente a telinha, lendo minhas reclamações. Para quem ainda não sacou, esse "ela" sou eu mesma. Desliga o computador, vai! E se quiser conversar comigo, por favor, me liga que eu tô offline.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Melhor do que ontem (artigo)
Trabalhei durante 5 anos e meio na TV Globo e, apesar de preferir não citar nomes, preciso relembrar um evento específico. Uma talentosa atriz da casa, jovem, linda e bem-sucedida, é uma das mulheres mais antipáticas e pedantes que eu já vi na vida. Diz-se, à boca pequena, que ela até já conseguiu ultrapassar uma famosa veterana no quesito estrelice. Pois bem. Assistindo a entrevista da dita-cuja num programa de entretenimento, me saltou aos ouvidos o comentário que ela fez sobre sua infância com o pai. “Sempre que eu ia participar de competições, meu pai me dizia: _Filha, não importa apenas competir, você tem que ser a melhor.” Foi então que compreendi. Está explicado o porquê da bela subir no salto e sustentar a postura de quem se acha melhor do que os “restos mortais”.
Mesmo sabendo que o mundo artístico é um celeiro de egos inflados, aproveito a ocasião para afirmar: infelizmente, esta mentalidade não reina apenas no mundo da moda e das artes. O instinto de competição do ser humano é muito estranho. Em todos os ambientes de trabalho por onde passei, e acredito que isso não aconteça apenas comigo, pude notar uma cambada de gente invejosa, competitiva, fazendo questão de se sobressair à custa da diminuição ou ridicularização do outro.
O que me faz lembrar do comentário do meu pai sobre meu último post, Decrescimento é a palavra. Preocupado como só os pais e as mães sabem ser, ele disse que eu queria mudar o sistema, ao sugerir que todos nós trabalhássemos menos. Afirmou ainda que ele nunca trabalhou por obrigação e sim por prazer, por isso as muitas horas de labuta não lhe causavam sofrimento.
Ok, pai. Concordo contigo. Eu sou completamente workaholic e, como trabalho com o que gosto, tenho que me policiar de todas as maneiras para não esquecer que tenho marido, família, amigos e um mundo fora do escritório. Até comer e dormir direito fica difícil diante do meu entusiasmo por fazer cada vez mais e melhor o meu trabalho. E é exatamente nesse ponto que eu queria chegar. Quero sempre fazer mais e melhor o meu trabalho. Não dá para direcionar minha atenção e esforço para ser melhor do que os outros. Só podemos - e devemos, acredito eu - ser melhores do que nós mesmos. Até porque não podemos nos comparar a ninguém. Cada pessoa é única. Cada um tem os seus pontos fortes e fracos a serem trabalhados.
Por isso, repito: só posso ser melhor do que fui ontem. O resto é consequência. Se eu focar minha energia no meu desenvolvimento e progresso constantes, aí sim posso me sobressair em relação aos outros. E, mesmo assim, isso nem sempre acontece, vide o medalhista fenômeno Michael Phelps. Por mais evoluídos que os outros nadadores sejam, é quase impossível derrotar o “anfíbio” americano. O melhor que os concorrentes têm a fazer é aceitar o fato de que serão coadjuvantes, e, no máximo, ficarem de olho no comportamento do cara, para entender o que o torna tão imbatível.
Aliás, já que tocamos no assunto, concluo esse texto explicando quem me ensinou a pensar assim. Quando eu competia, principalmente naqueles inúmeros anos de natação irritantemente matutinas, era meu pai quem me aconselhava. “Filha, não interessa se você ganhou ou perdeu e sim se você fez o melhor que pode.” Então, pai, aproveito a oportunidade para falar, de todo o coração, sobre minha vida profissional: graças ao seu exemplo e conselhos, sempre dei o máximo de mim e, hoje, durmo com a consciência tranquila. E paz de espírito como essa definitivamente não tem preço! Obrigada pelos ensinamentos.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Decrescimento é a palavra (artigo)
Você conhece alguém que não esteja sempre com pressa durante a semana? Já reparou como o tempo parece ser cada vez mais escasso? Tenho ouvido muito o seguinte comentário de várias pessoas: “Ultimamente o tempo tem passado tão rápido. Parece que os dias voam!” Será que ninguém parou pra pensar que não é o tempo que passa mais rápido e sim as pessoas que estão correndo? Ninguém percebeu ainda que quem anda voando não são os dias e sim as pessoas? O problema é que os seres humanos não foram feitos para voar e sim para andar. Por isso, a grande incidência de quedas, falhas nas decolagens e estragos nos pousos. Afinal, o que acontece quando os homens-pássaros precisam parar abruptamente? É queda na certa!Para quem não entendeu a metáfora, eu explico. O que acontece com o sujeito que trabalha compulsivamente durante horas a fio do dia, período em que é pressionado pelos colegas de trabalho, pelos clientes e pelos chefes, para entregar tudo bem-feito e no prazo? Já reparou como os prazos estão cada vez mais curtos e a quantidade de tarefas diárias cada vez maiores? “A única coisa que não aumenta é o salário”, você deve estar pensando. Pois bem. Quando esse sujeito chega em casa, demora para “desligar” do trabalho. “Será que ficou faltando alguma coisa? Será que o chefe gostou do meu relatório? Ai, meu Deus, tenho tanta coisa pra fazer amanhã!” São tantos os pensamentos rondando a cabeça do pobre-coitado que ele nem consegue saborear o jantar direito. Sequer repara no sorriso iluminado do filhinho ali ao lado, doido para brincar com o papai e a mamãe exaustos da lida.
E quando pinta um feriado ou férias, sem viagem? Será que eles sabem o que fazer no tempo livre? O que eu já ouvi de gente dizendo que não consegue ficar 30 dias de férias, porque não aguenta ficar muito tempo “sem fazer nada”, não tá no gibi! É impressionante! Parece que não ter nada pra fazer é um pecado. Aliás, a questão da culpa é outro fator importante. Por que as pessoas se orgulham tanto de dizer que estão atoladas de trabalho, “ralando muito”? Já reparou como a sociedade condena quem trabalha pouco? Quantas vezes você já não olhou torto pra alguém só porque ele não sofre tanto como você para ganhar dinheiro? “Ah, fulano não faz nada, só fica lá na cadeira de chefe dando bronca, ganhando o dinheiro que eu suo para conseguir para a empresa. Beltrana é uma fútil, dona de casa, não sabe o que é ter problemas na vida. Sicrano também, já nasceu rico. Fulaninho não conta, está aposentado.”
O que me motivou a escrever esse artigo foi a leitura de duas matérias muito interessantes da Revista Vida Simples, uma sobre culpa e outra sobre decrescimento sustentável. Esse nome estranho é uma tese, desenvolvida pelo economista e filósofo francês Serge Latouche (foto), que vem chocando o mundo ao criticar o crescimento econômico promovido pelos estados. Latouche defende com ardor uma suposta “descolonização” do nosso imaginário e uma mudança de comportamento mais ativa para salvar o planeta do esgotamento de recursos naturais. Em entrevista concedida a Igor Olszowski, ele alerta que a mensagem não é somente reduzir o excesso de consumo e os danos ecológicos, mas também reduzir a quantidade de trabalho. E a idéia não é trabalhar menos para ganhar mais e sim trabalhar menos para que todos possam trabalhar e viver melhor. “Assim, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que realmente valem a pena. Escutar música, dançar, jogar, pensar ou mesmo não fazer nada”, afirma o pensador.
No entanto, ele alerta: “ao contrário disso, nós nos tornamos viciados no trabalho”. E é exatamente aí que entra a questão da culpa, tão bem aprofundada em outra matéria da Vida Simples, de autoria de Mariana Sgarioni. “A culpa é um sentimento que parte de alguém que transgrediu (ou acha que transgrediu) alguma norma, seja ela social, seja legal, moral, ética ou religiosa. É a violação de alguma regra que pode ou não ter causado dano a alguém. ...Ela nos faz perder o sono, traz dor no peito, nó na garganta...”
Ainda não entendeu a ligação das duas matérias? Elementar, caro leitor! A tal da culpa faz as pessoas trabalharem feito burros de carga e viverem correndo como se o mundo fosse acabar amanhã. Afinal, elas têm medo do desemprego, medo de ficar pra trás, receio de serem taxadas como desatualizadas, vagabundas ou boa-vidas. Elas se martirizam pelo sentimento de culpa por não ter dinheiro para bancar todo o luxo e o supérfluo que a mídia faz questão de esfregar na nossa cara como se fosse necessidade básica. Entendeu a conexão?
É por isso que eu assino embaixo do que diz Sérgio Latouche. “O consumo traz cada vez menos a felicidade...O estresse tornou-se um problema grave em nossa sociedade. Mas ao mesmo tempo somos viciados nesse estilo de vida. Necessitamos de uma terapia...Nós quase precisamos de um curso de desintoxicação para reaprender a viver. E, nesse ponto de vista, o decrescimento é uma arte de viver.”
Eu já estou decidida. E você? Pronto para decrescer algumas coisinhas na sua vida, de forma a abrir caminho para o crescimento de sua alegria e paz interior?
Foto: Alexandra Marie (Revista Vida Simples)